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Cine Rádio: Gary Cooper – Os 120 Anos de um “Ídolo, Amante e Herói” das Telas
03/05/2021 15:58 em Novidades

Por Paulo Telles

 

Nenhum astro de Hollywood personificou melhor o homem norte-americano do que o lendário Gary Cooper (1901-1961), afinal ele possuía todo atributo necessário para tal identificação. Ele tinha 1m90 de altura, olhos azuis muito expressivos e morais, e no cinema era escalado para viver heróis discretos, gentis e sonhadores, aventureiros e cowboys, pronto para enfrentar qualquer desafio.  Sua ascensão foi rápida. Com apenas cinco anos de carreira cinematográfica alcançou o estrelato, e foi astro até morrer em 1961. Em 1928, ainda na fase do cinema mudo, já era protagonista absoluto de uma dezena de filmes, e em 1933, já na fase sonora da Sétima Arte, já ganhava seis mil dólares por semana. Entre 1936 a 1957, esteve dez vezes na lista dos astros campeões de bilheteria, e na década de 1940 já era o ator mais bem pago do mundo, chegando até mesmo a ganhar mais do que o Presidente dos Estados Unidos. Cooper ainda foi vencedor de dois Oscars como Melhor Ator: em 1941, por Sargento York (Sergeant York, 1941) de Howard Hawks; e em 1952 por Matar ou Morrer (High Noon, 1952) de Fred Zinnemann. O astro em 1960, já doente e alquebrado pelo câncer, ainda ganhou um Oscar especial pelo conjunto da obra, num discurso emocionado feito pelo ator James Stewart.

Frank James Cooper, seu verdadeiro nome, nasceu a 7 de maio de 1901, em Helena, Montana. Filho de ingleses, seu pai chegou a ser juiz da Suprema Corte do Estado. Quando menino chegou a viver na Inglaterra, onde fez os primeiros estudos. Voltando para os Estados Unidos, continuou os estudos e demostrou-se interessado por desenho artístico, chegando até mesmo a colaborar para um jornal de sua cidade na função de caricaturista político. Pouco depois do fim da 1ª Guerra Mundial, Cooper sofreu um acidente de automóvel e isso pareceu selar seu destino. Fraturou a bacia e, para se recuperar, os médicos receitaram-no a cavalgar. Horas e horas a fio, dia após dia, o jovem Cooper andava a cavalo. Como resultado, o futuro astro virou um perfeito cavaleiro, nunca imaginando que esta habilidade o levaria para o cinema e o identificaria com um dos grandes representantes do gênero Western, um legítimo cowboy das telas.

Ao chegar a Los Angeles em 1924, foi se reencontrar com a família e ainda continuou buscando trabalhos como desenhista que não davam certo, pois ou era mal renumerado ou os trabalhos eram recusados.  Até que um dia Cooper foi descoberto por Nan Collins, uma agente de muito prestígio, que o convidou para fazer figuração em filmes. A primeira coisa que Nan providenciou para o jovem e promissor ator foi mudar seu nome. A agente era de uma pequena cidade chamada Gary, e ela sugeriu que ele adotasse o nome desta cidade. Ele topou e assim surgiu...

*Gary Cooper*

Seu primeiro papel de destaque foi no filme O Beijo Ardente (The Winning of Barbara Worth, 1926), seu primeiro western. Em 1927, fez uma pequena, porém expressiva participação no clássico Asas (Wings, 1927), de William A. Wellman (1896-1975), o primeiro filme a ganhar um Oscar na categoria Melhor Filme. Em 1929, atuou em seu primeiro filme falado, Agora ou Nunca (The Virginian, 1929), faroeste dirigido por Victor Fleming (1889-1949). Já nessa época, Cooper já tinha tido vários relacionamentos amorosos com algumas starlets de Hollywood, entre as quais, Clara Bow e Lupe Velez.

Mas foi em 1930 que veio definitivamente sua consagração como astro, na obra prima Marrocos (Marocco, 1930), apesar de completamente dominado pelo diretor Josef Von Sternberg (1894-1969), mas a estrela Marlene Dietrich (1901-1992) simpatizou com o jovem ator. Ficou famosa a história em que Cooper tinha que dar uma bofetada em um extra durante rodagem de uma cena. Von Sternberg obrigou-o a repetir a cena nada mais e nada menos do que 163 vezes. E Cooper naturalmente viu-se obrigado a pedir desculpas para o extra. Após as filmagens de Ruas da Cidade (City Streets, 1931) de Rouben Mamoulian (1897-1987), Cooper teve um desmaio e precisou ser hospitalizado. O médico que o atendeu disse que não estava fazendo bem ao ator fazer um filme atrás do outro, e o recomendou umas férias. No ano seguinte, Cooper fez uma viagem a Europa, e ao retornar aos Estados Unidos, veio acompanhado da Condessa di Frasso, rica herdeira mais velha que ele. Mas o ator, embora não tivesse 100% recuperado, precisou voltar a filmar. Em 1932, estrelou Adeus as Armas (A Farewell to Arms, 1932) de Frank Borzage (1894-1962), baseado na obra do escritor Ernest Hemingway (1899-1961), de quem se tornou muito amigo. Neste mesmo ano, o astro dispensou a Condessa di Frasso para casar com Veronica “Rocky” Balfe, uma jovem da alta sociedade de 20 anos de idade, com quem teve uma filha única, a atriz Maria Cooper, nascida em 1937. 

Ninguém fez mais clássicos do cinema do que Gary Cooper, e a prova disso é que era requisitado por grandes cineastas de seu tempo, como Frank Capra, Sam Wood, Howard Hawks, King Vidor, Fritz Lang, William Wyler e Fred Zinnemann. Para Capra (1899-1991), estrelou dois grandes sucessos: O Galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes to Town, 1936) e Adorável Vagabundo (Meet John Doe, 1941), que firmou o ídolo como o herói de jeito tímido e idealista, capaz de enfrentar todos os desafios por um mundo mais justo e igualitário. Para Hawks (1899-1977), fez dois filmes no mesmo ano de 1941, Sargento York (Sergeant York, 1941), filme que deu a ele seu 1º Oscar, e Bola de Fogo (Ball of Fire, 1941), contracenando com Barbara Stanwyck (1907-1990). Sargento York é a cinebiografia do herói americano da 1ª Guerra Mundial Alvin C. York (1887-1964). A princípio, Cooper relutou em fazer o papel de uma celebridade que ainda vivia, mas mudou de ideia quando o próprio biografado pediu ao ator que fizesse o seu papel. Para Sam Wood (1883-1949) fez Ídolo, Amante e Herói (The Pride of the Yankees, 1942), outra cinebiografia com Cooper vivendo o atleta do beisebol americano Lou Gehrig (1903-1941) e o envolvente Por Quem Os Sinos Dobram (For Whom the Bell Tolls, 1943), um dos maiores clássicos do romantismo hollywoodiano baseado em conto de Ernest Hemingway, vivendo um grande amor com Ingrid Bergman (1915-1982) e sendo o trágico herói que tem como missão explodir uma ponte em plena Guerra Civil Espanhola. Ainda viveu um cientista e físico para Fritz Lang (1890-1976) cuja missão era impedir que os nazistas apossassem da bomba atômica em O Grande Segredo (Cloak and Dagger, 1946).

Foi durante as filmagens de Vontade Indômita (The Fountainhead, 1949), de King Vidor (1894-1982) que Cooper conheceu a atriz Patricia Neal (1926-2010), oriunda da Broadway e com quem contracenou na trama. Os dois tiveram um tórrido e escandaloso romance fora dos sets. Quando a dupla iniciou as filmagens de seu segundo filme juntos, Cinzas ao Vento (Bright leaf, 1950) de Michael Curtiz (1886-1962), o romance já era de conhecimento do público. A esposa de Cooper, Veronica, jamais concederia ao ator o divórcio, pois era católica. A sociedade de Hollywood era contra o romance. Para recuperar alguma dignidade, Cooper e Veronica se separaram oficialmente, mas nem por isso deixavam de se ver. A lendária e venenosa colunista de Hollywood Hedda Hopper (1885-1966) assim descreveu a chegada de Veronica a uma festa: “Coop (Gary) estava com Patricia no bar. Rocky (Veronica) chegou com Peter Lawford e sentaram-se a uma mesa. Depois, Coop foi até Rocky e ficou conversando com ela”. Isso foi um lembrete para Patricia não esquecer que estava namorando um homem casado. Quando viu que não tinha nenhuma chance, Patricia largou Gary e voltou para Nova York.

Aos 51 anos de idade, Cooper viu sua carreira em Hollywood menos prestigiada. Voltou finalmente para a esposa e a filha, e a família fez uma viagem ao Vaticano, visitando o Papa Pio XII (1876-1958). Pouco tempo depois, o ator se converteu ao catolicismo. Contudo, a estrela de Cooper voltou a brilhar quando foi escalado em 1952 pelo diretor Fred Zinnemann (1907-1997) para viver o xerife Will Kane no clássico Matar ou Morrer (The High Noon, 1952), uma das obras mais importantes da cinematografia mundial e patrimônio cultural dos Estados Unidos (tanto que uma cópia do filme foi depositada numa cápsula do tempo para ser aberta no ano de 2213). O western é uma clara alegoria política, exprimindo o comportamento da sociedade americana paralisada pelo medo, como ocorria nos EUA em 1952 por conta do Macarthismo. Por seu desempenho como o solitário homem da lei que tenta obter ajuda da população para enfrentar um pistoleiro que chega ao próximo trem para mata-lo, Gary ganhou o segundo Oscar como Melhor Ator.

Com a nova premiação da Academia, a carreira de Cooper voltou a deslanchar, e renomados cineastas o chamaram para grandes papéis em grandes filmes, como Robert Aldrich (1918-1983) no que é considerada “inspiração” do diretor Sergio Leone para compor seus faroestes italianos – Vera Cruz (Vera Cruz, 1954), rodado no México, onde contracenou com outro monstro sagrado do cinema, Burt Lancaster (1913-1994), e tendo a espanhola Sarita Montiel (1928-2013) como interesse romântico de Cooper na trama. William Wyler (1902-1981) resgatou a outrora ternura e docilidade do astro (bem típica nos filmes que estrelou para Frank Capra) quando o dirigiu em Sublime Tentação (Friendly Persuasion, 1956), uma das obras mais respeitáveis do cineasta e que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1957. Billy Wilder (1906-2002) o fez ter um encontro com a jovem Audrey Hepburn (1929-1993) em Amor na Tarde (Love in the Afternoon, 1957), deliciosa comédia romântica onde era bem visível, mesmo com todos os recursos de maquiagem, que Cooper estava bem envelhecido pra idade. Dois diretores chamaram o astro para estrelar estes dois ótimos exemplares de western: Anthony Mann (1906-1966) o colocou em O Homem do Oeste (The Man of the West, 1958), faroeste psicológico onde foi “obrigado” a assistir ao strip tease de Julie London (1926-2000) com uma faca encostada na garganta; e Delmer Daves (1904-1977) em A Árvore dos Enforcados (The Hanging Tree, 1959), onde Cooper interpretou um anti-herói, um médico e jogador passional. Cooper ainda fez para o diretor Robert Rossen (1906-1966) Heróis de Barro (They came to Cordura, 1959), contracenando com Rita Hayworth (1918-1987), onde interpretou um tipo de personagem que nunca imaginou fazer – um covarde.

Mas os trabalhos e esforços contínuos fizeram abalar a saúde de Gary. Em 1959, os médicos diagnosticaram uma úlcera no ator, e o recomendaram que descansasse. Chegou a ser hospitalizado e operado no estômago. Semanas depois, nova intervenção, desta vez câncer na próstata que se alastraria por todo corpo. Mas o veterano astro não queria parar de filmar, e ainda fez para o cineasta inglês Michael Anderson (1920-2018) seus dois últimos filmes: O Navio Condenado (The Wreck of the Mary Deary, 1959) com Charlton Heston (1923-2018) e A Tortura da Suspeita (The Naked Edge, 1961) com Deborah Kerr (1921-2007), que foi lançado após a morte de Cooper, e ambos rodados na Inglaterra.

Antes do término das filmagens de seu último filme, o ator foi informado de que o câncer chegara aos pulmões e de que qualquer cirurgia seria inútil. Já perto do fim, obrigado a ficar deitado, Cooper era mantido a base de sedativos. Seu velho amigo Ernest Hemingway, também confinado em um hospital, telefonou pra o astro. Cooper lhe disse: “Aposto o que você quiser que estarei debaixo da terra antes de você”. No dia 13 de maio de 1961, seis dias depois de completar 60 anos, Gary Cooper morreu. Em todo o mundo, multidões de fãs, celebridades internacionais e a imprensa lamentaram o falecimento deste grande astro que foi (e ainda é!) o legítimo ídolo, amante e herói das telas, cujo 120º aniversário de nascimento é celebrado neste mês de maio. Um ídolo imortal e inesgotável.

 

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, além de editor do blog Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema.

Acesse: http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com

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