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Cine Rádio: Há 70 Anos, Era Lançado Quo Vadis, o “Colossal” Épico da MGM, Com Inesquecível Interpretação de Sir Peter Ustinov
10/04/2021 13:47 em Musica

Por Paulo Telles

 

Há 70 anos (em 1951) era lançado nos Estados Unidos o “colossal” épico da Metro Goldwyn Mayer (MGM), os estúdios das “marca do leão”, QUO VADIS (Quo Vadis), dirigido pelo cineasta Mervyn LeRoy (1900-1987). No Brasil, este estrondoso sucesso de bilheteria só chegou ao final de 1953 invadindo as três salas do cinema Metro no Rio de Janeiro (e em outras capitais pelo país), onde se fez grande merchandising com o filme, inclusive na linha de perfumes (patrocinadas pela revista Cinelândia em sociedade com a perfumaria Avon) e em venda de discos, cuja partitura célebre do Mestre Miklos Rozsa (1907-1995) alcançou alto índice de vendagem e garantiu grande popularidade a fita.

QUO VADIS, de 1951, é considerada uma das primeiras e mais suntuosas superproduções do cinema moderno do pós-guerra. Na época de seu lançamento, o departamento de publicidade da MGM intitulou o filme como “colossal”. O público se impressionou com o requinte de detalhes deste grande épico, com seus cenários esplendorosos (uma das maiores reconstituições da Roma Antiga até então) e tudo exposto nas salas de exibição em tela plana para dar ares de monumentalidade. No entanto, desde que surgiu o CinemaScope (tecnologia de filmagem e projeção que utilizava lentes anamórficas e que mudaria para sempre a estética do cinema) com outra superprodução épica ao estilo, O Manto Sagrado (The Robe) em 1953, que QUO VADIS não pôde mais portar o título de “colossal”.

QUO VADIS foi extraído da obra literária publicada em 1897 pelo escrito polonês Henryk Sienkiewicz (1846-1916), prêmio Nobel de Literatura em 1905. Seu romance já havia sido levado às telas de cinema três vezes ainda na era do cinema mudo, sendo conhecida a versão italiana de 1924 com Emil Jannings (1884-1950) no papel do imperador Nero. Mas é a versão hollywoodiana de 1951, estrelada por Robert Taylor (1911-1969), Deborah Kerr (1921-2007), Leo Genn (1905-1978) e o incomparável Peter Ustinov (1921-2004) a mais popular de todas (lembrando que temos ainda as versões de 1985, feita por Franco Rossi para a RAI, a TV italiana, e a de 2001 produzida na Polônia e dirigida Jerzy Kawalerowicz, mais fiel ao romance).

Rodado nos estúdios de Cinecittá, Roma, pela MGM, então a mais poderosa empresa de cinema de Hollywood, além de ter sido o primeiro filme colorido saído deste estúdio italiano, QUO VADIS de 1951 ainda levou 12 anos em preparativos, começando a ser filmado em 1949 sob a direção de John Huston, tendo como astros principais Gregory Peck (como Marcus Vinicius) e Elizabeth Taylor (como Lygia). Custou sete milhões de dólares, o mais caro filme produzido até então (E O Vento Levou, também da MGM, custou 4,5 milhões de dólares em 1939).  Porém, o chefão Louis B. Mayer (1884-1957) não gostou do roteiro. Mayer queria um épico religioso aos moldes de Cecil B. DeMille, e não gostou do tratamento moderno dado pelos roteiristas a Nero, assemelhando-o a Adolf Hitler em sua obstinada perseguição aos Cristãos, seu protótipo parceiro de loucura. Afinal, somente quatro anos antes que a 2ª Guerra Mundial havia terminado.

Huston abandonou a direção após uma série de diferenças com Mayer, e gastos em Roma começaram a ficar dispendiosos (cerca de dois milhões de dólares já haviam sido gastos). Destarte, diretor e grande parte do elenco foram mudados. O veterano Mervyn LeRoy assumiu a direção, e o galã do estúdio Robert Taylor assumiu o lugar de Peck, enquanto a inglesa Deborah Kerr assumiu o lugar de Liz Taylor, porém esta fez parte de uma figuração em cena de multidão junto com outra estrela que se tornaria muito famosa, a italiana Sophia Loren.

As cenas principais foram todas rodadas em 1950, entretanto sequências adicionais e a montagem final retardaram a estreia nos cinemas americanos até novembro de 1951. A produção seguiu seu curso em Cinecittá durante sete meses. LeRoy contratou 60 mil figurantes e os dirigiu com tiros de pistola, do alto de um guindaste sobre os estúdios de Cinecittá, ainda arranjando mais de 50 leões, todos que o pessoal da MGM conseguiu nos circos da Europa. O diretor ainda visitou o Papa Pio XII (1876-1958) no Vaticano e chegou a pedir que benzesse o script de Quo Vadis, escrito por John Lee Mahin (1902-1984), S. N Behrman (1893-1973), e Sonya Levien (1888-1960). O épico ainda teve a produção do lendário Sam Zimbalist (1904-1959), que oito anos depois produziria outro épico retumbante, Ben-Hur (1959), dirigido por William Wyler.

No campo das atuações, todos estão ótimos em seus papéis. Mas o sucesso de toda produção deveu-se principalmente ao multitalentoso Peter Ustinov, talvez na interpretação mais indelével de sua expressiva carreira. Ao longo de sua vida artística, Ustinov foi ator, diretor, roteirista, produtor, escritor e teatrólogo.  Por sua performance como Nero, chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas o Oscar na categoria viria mais tarde, em duas ocasiões: Spartacus (1960) dirigido por Stanley Kubrick, e Topkapi (1964), de Jules Dassin. Neste mês de abril de 2021, celebra-se o centenário deste renascentista do século XX que deixou vasto patrimônio cultural e artístico para a humanidade, seja com suas atuações no cinema e no teatro, seja em suas obras impressas. Desde 1971, Ustinov era Embaixador da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a infância (Unicef). Em 1990, recebeu o título de “Sir”, tornando-se Cavaleiro do Império Britânico pela Rainha Elizabeth. Peter Ustinov faleceu em 2004, na Suíça, aos 82 anos.

A opulência deste superespectáculo reflete a qualidade do cinema hollywoodiano em seu período de ouro, contendo uma das mais grandiloquentes passagens já registradas em filme épico, com a marcha triunfal das legiões romanas com o triunfo de Marcus Vinícius, os mártires cristãos do circo de Nero (baseado no Coliseu, onde Cinecittá reconstituiu com capacidade para 30.000 extras), o incêndio de Roma e a luta do bravo gigante cristão Ursus (interpretado pelo lutador Buddy Baer, 1915-1986) contra um touro para salvar sua ama Lygia (Baer foi dublado na cena pelo toureador português Nuno Salvação Barreto). Por estas e outras qualidades que Quo Vadis de 1951 entrou definitivamente para a história das grandes produções da Sétima Arte.

 

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, além de editor do blog Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema. http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com

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