Volume
Rádio Offline
Redes
Sociais
Cine Rádio - Relembrando o Primeiro Festival Internacional de Cinema do Brasil e Suas Curiosidades, em 1954
13/03/2021 17:47 em Novidades

Por Paulo Telles

Era sem dúvida um momento de glamour que imperava nestes idos tempos nos anos de 1950. Uma das maiores capitais do nosso país foi cenário de um dos maiores eventos ocorrido pela divulgação da Sétima Arte. Assim foi o Primeiro Festival Internacional de Cinema do Brasil, realizado em São Paulo entre os dias 12 a 26 de fevereiro de 1954, que reuniu uma constelação de astros e estrelas do cinema mundial. Sem dúvida, tanto São Paulo quanto o resto do Brasil praticamente parou para recebê-los, e ao menos o público paulista pôde ver de perto seus ídolos pessoalmente, ao vivo e em cores. E isso em plena época de Carnaval.

Mas o evento prometia a participação de astros de grande porte da época, como Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Gregory Peck, Ingrid Bergman, William Holden, Bob Hope, e os cineastas Billy Wilder e Roberto Rossellini para consagrarem o festival. Isto foi prometido graças a uma equivocada divulgação do lendário Playboy brasileiro Jorge Guinle (1916-2004), que segundo ele, tivera casos amorosos com várias estrelas de cinema e desfrutava livre acesso aos grandes estúdios americanos, sendo ele incumbido pela comissão executiva de arrebanhar convidados ilustres por lá. No dia 11 de fevereiro, véspera da estreia do festival, desembarcou em São Paulo com uma lista de confirmações menos “estrelar”, mas não menos importante e significativa.

Tudo começou quando durante o Festival de Punta Del Este, em 1952, o vice-presidente do estúdio americano RKO, Phil Reismann, sugeriu ao diplomata e compositor Vinicius de Moraes (1913-1980) e a Guinle que organizassem um evento do gênero no Brasil. Enquanto isso, os responsáveis pelos festejos do IV Centenário de São Paulo (25 de janeiro de 1954) tentavam incluir na programação uma mostra de cinema. Para a comissão organizadora, foram convidados, além de Guinle e Vinicius, os críticos Francisco Luís de Almeida Salles, Paulo Emílio Salles Gomes, a colunista e correspondente brasileira em Hollywood das revistas Cinelândia e Filmelândia (publicadas pela extinta Rio Gráfica Editora) Zenaide Andrea, o jornalista Salvyano Cavalcante de Paiva (1923-2000), da Revista Manchete, entre outros.

A presença de intelectuais com livre trânsito pelas cinematecas do mundo garantiu que a programação não se limitasse às estreias de longas dos 23 países participantes – estas ocorreriam no imponente Cine Marrocos. Haveria também as retrospectivas de três grandes nomes da Sétima Arte: o brasileiro Alberto Cavalcanti (1897-1982), o francês Abel Gance (1889-1981) e o austríaco Erich Von Stroheim (1885-1957). Em meio a filmes menores, foram exibidos futuros clássicos como Os Brutos Também Amam/Shane, de George Stevens (1904-1975), Noites de Circo, de Ingmar Bergman (1918-2007), e Os boas-vidas, de Federico Fellini (1920-2003).

Entre os astros e estrelas que desembarcaram para o festival estiveram: Errol Flynn, Rhonda Fleming, Ann Miller, Walter Pidgeon, Irene Dunne, Edward G. Robinson, Fred MacMurray e sua noiva June Haver, Jeffrey Hunter e sua esposa Barbara Rush, a estrela italiana Leonora Ruffo, e a cubana Ninon Sevilha. Entre os nossos artistas brasileiros que recepcionaram os astros internacionais estiveram: Tonia Carreiro, Vanja Orico, Marisa Prado, Alberto Ruschel, Aurora Duarte, Vera Nunes, Mazzaropi, Ruth de Souza, Hélio Souto, entre outros.

Para a grande maioria, o evento só começou mesmo com a chegada, a 19 de fevereiro de 1954, dos integrantes da delegação hollywoodiana, e muita badalação se seguiu ao longo da programação. O público invadiu a pista do Aeroporto de Congonhas para receber seus ídolos. Edward G. Robinson (1893-1973) tirou o chapéu e acenou para o público. Foi muito aplaudido. Enquanto o “gângster” de Hollywood esbanjava simpatia, certo herói das telas de cinema promovia confusões, Errol Flynn (1909-1959).

Flynn desembarcou um dia após seus colegas e, para efeito, de pileque (notória e lendária sua paixão pela bebida!). “Nunca estive com ele sóbrio”, lembrou certa vez a atriz Aurora Duarte (1937-2020) sobre Flynn, que em uma ocasião precisou segurá-lo para evitar um escorregão quando saíam do Hotel Esplanada. Na boate do mesmo hotel, na madrugada de 24 de fevereiro, Flynn tentou quebrar a máquina do fotógrafo Henri Ballot, da revista O Cruzeiro. Os dois saíram à rua para brigar, mas foram impedidos por Jorge Guinle e outros. Na noite de 26 de fevereiro, levou uma bofetada ao tentar beijar uma fã em frente ao Cine Marrocos. Há quem se lembrasse dele bêbado num coquetel no Clube Harmonia, onde rodopiava na beira da piscina, acabando por cair nela com copo na mão. Flynn não ficou muito a vontade, principalmente quando percebia estar sendo "vigiado" pelos fotógrafos, que ambicionavam em pega-lo em algum flagrante. Num baile de sábado de carnaval, o outrora "Robin Hood" e “Capitão Blood” se comportou da melhor maneira possível, mas não pôde evitar que fosse surpreendido com ar tão desconfiado.

Rhonda Fleming (1923-2020) conforme a imprensa da época soube cultivar o bom humor em qualquer emergência. Ao chegar a São Paulo, perdeu a sua valise, e com ela, o dinheiro que trouxe. Nem por isso, fez cara feia. Por ocasião da entrevista à imprensa concedida pela delegação americana no Trocadero Paulista, ficou calmamente tomando seu chá com toradas. Eram 11h30 da manhã e a artista havia despertado tarde.  Rhonda e a dançarina dos musicais da MGM Ann Miller (1923-2004) compareceram a um baile de carnaval no Teatro Municipal de São Paulo, fantasiadas de Baiana. 

Fred MacMurray (1908-1991) estava noivo da atriz (e ex-noviça) June Haver (1926-2005), e em momento reservado para ambos, a crítica e colunista de cinema Zenaide Andrea chegou a interromper o idílio do casal para uma foto. Tão logo voltassem para os Estados Unidos, Fred e June se casariam no mesmo ano de 1954, casamento que durou até 1991 com o falecimento do ator. Haver faleceu em 2005.

Jeffrey Hunter (1926-1969), mesmo tendo em vista a presença da sua então esposa, a belíssima atriz Barbara Rush, foi ovacionado pelas jovens fãs brasileiras que não resistiam a sua apolínea beleza com cativantes olhos azuis. O galã, que seria o mais famoso intérprete de Jesus Cristo no cinema no clássico Rei dos Reis (King of Kings, 1961) de Nicholas Ray, foi cumprimentado pela atriz carioca Vera Nunes (1928-2021), que encantada pelo ator, lhe fez um brinde. Hunter na vida real era visto como uma pessoa educada e cortês, tanto que foi visto no Cocktail do Jóquei Clube de São Paulo (que recepcionou a delegação de Hollywood às vésperas do fim do festival) passando um prato farto de comida do Buffet para o marido de Rhonda Fleming, o Dr. Lew Merryl. 

Joan Fontaine (1917-2013) chegou a declarar para a correspondente Zenaide Andrea que gostaria de permanecer mais tempo no Brasil, um país segundo ela de “Sol e Alegria”.

Apesar de não ter passado da primeira edição, o festival foi o precursor de outras realizações do gênero, como a Mostra Internacional. Outra contribuição importante foi a dos críticos brasileiros que persuadiram a organização para custear cópias de todos os filmes que eles selecionaram para as retrospectivas (em vez de apenas tomá-los emprestados das instituições estrangeiras). Terminado o evento, esse material foi doado à Filmoteca do MAM (Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro), que daria origem à Cinemateca Brasileira – hoje o maior acervo de imagens em movimento da América Latina, com cerca de 30 mil títulos. Com certeza, o Primeiro Festival Internacional de Cinema do Brasil é um marco histórico não somente na nossa cultura, mas na memória dos amantes de cinema, sobretudo para aqueles que vivenciaram época tão nostálgica.

 

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, além de editor do blog Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema.

 

http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Vintage Educação
Panvel Farmácias