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Cine Rádio - Os Dez Mandamentos: o Esplendor da Era de Ouro de Hollywood
09/12/2020 22:25 em Musica

Por Paulo Telles

 

Em épocas idas de Natal, Páscoa ou Semana Santa, era comum que as salas de cinema pelo Brasil exibissem filmes religiosos, geralmente épicos em superproduções que remetiam às histórias do Cristianismo ou da Bíblia Sagrada. Ao contrário de hoje, naqueles tempos eram poucas as produções com temas sobre o Natal, muito embora o cinema clássico lançasse com êxito algumas fitas ao estilo, como De Ilusão Também se Vive (1947), A Felicidade Não se Compra (1946) ou Natal Branco (1954).

Nas grandes metrópoles do Brasil ou mesmo nos cinemas do interior eram os filmes com temática religiosa que atraiam as plateias para as salas na época de Natal. Frequentemente a cada ano, eram exibidas sessões com O Manto Sagrado (1953), Quo Vadis (1951), Ben-Hur (1959), Rei dos Reis (1961), entre outros. Mas em realidade, nenhum filme teve tanta ou maior repercussão em divulgação do que o clássico OS DEZ MANDAMENTOS (The Ten Commandments,1956), produzido e dirigido por Cecil B DeMille (1881-1959) - verdadeira lenda que se confunde com a própria história do cinema americano - e estrelado por Charlton Heston (1923-2008). Um marco na cinematografia mundial, produto de todo esplendor que representou a era de ouro de Hollywood.

Ao ser lançado originalmente no Brasil a 04 de janeiro de 1957, filas formadas por multidões se aglomeraram diante dos cinemas brasileiros para assistirem a este grande superespetáculo, que tem como destaque o revolucionário efeito especial da abertura do Mar Vermelho, causando grande impressão para o público da época, e tudo em majestoso Tecnicolor. Vale também destacar que o feito cinematográfico ganhou Oscar na categoria de efeitos especiais, realizado pelo especialista John P. Fulton (1902-1966). Também foi o último filme do cineasta DeMille, que temeroso por um fracasso comercial, chegou a declarar aos jornalistas: “Outro filme, ou então outro mundo!”. Mas os receios do diretor caíram por terra quando sua obra-prima se tornou o maior sucesso comercial, tanto para sua longeva carreira de diretor (iniciada em 1914) quanto para a história da Paramount, custando aos cofres do estúdio 13,5 milhões de dólares e faturando 43 milhões de dólares só no mercado norte-americano. De fato, talvez sem medir as próprias palavras, DeMille não tivesse precisado de outro filme para concluir sua extensa e importante filmografia (grande parte composta por filmes bem sucedidos de crítica e bilheteria), afinal, sua competência na Sétima Arte não precisava ser posta a prova. Mas três anos depois, ele realmente partiria para “outro mundo”, a 21 de janeiro de 1959, sem poder realizar o sonho de remontar um de seus sucessos, “Lafitte, o Corsário Sem Pátria”, cuja direção entregou para seu então genro, o ator Anthony Quinn.

Em 1923, ainda na fase do cinema mudo, DeMille já havia produzido e dirigido a saga da libertação dos hebreus rumo à Terra Prometida, com o mesmo título e tendo Theodore Roberts (1861-1928) como Moisés. Contudo, a 1ª versão era mais voltada para o tema moral do título, tanto que foi dividida em duas partes: um prólogo contando brevemente a história de Moisés, desde as pragas do Egito, a morte do primogênito do Faraó, até o recebimento das Tábuas da Lei, e tudo isso num espaço de uma hora de projeção; e um conto moral nos tempos contemporâneos com Richard Dix (1893-1949), uma parábola sobre o bem e o mal, personificado por dois irmãos, numa clara alusão de Caim e Abel da Bíblia.

A popular versão de 1956, ao longo de suas quase 4 horas de projeção, veio a trazer a mais moderna tecnologia da época, e o mérito da produção não ficou por aí. Um elenco All-Star compôs todo o espetáculo, pois além de Charlton Heston como Moisés, despontaram: Yul Brynner (1920-1985), em destaque como o Faraó Ramsés, inimigo implacável de Moisés e seu irmão por adoção; a talentosa Anne Baxter (1923-1985) como a Rainha Nefertiri, esposa de Ramsés e antiga paixão de Moisés; o lendário “gangster” Edward G. Robinson (1893-1973) como Dathan, renegado hebreu e aliado de Ramsés; o galã juvenil John Derek (1924-1998) como Josué, braço-direito de Moisés; Yvonne de Carlo (1922-2007), a inesquecível Lily da série de TV “Os Monstros” (1964-1966) como Ziphora, a dedicada esposa de Moisés; o consagrado ator inglês Sir Cedric Hardwicke (1893-1964) como o Faraó Seth; o astro dos filmes de terror Vincent Price (1911-1993) como Baka, o arquiteto do Faraó; John Carradine (1906-1988), um dos mais notórios vilões do cinema e pai do finado David (Kung Fu) como Aarão, irmão de Moisés; a dama do teatro inglês Judith Anderson (1897-1992) como Memnet, a criada egípcia; e Debra Paget, única artista do cast principal ainda viva, no papel de Lilia, a amada de Josué.

No seu “canto de cisne”, DeMille, com mais de 70 anos de idade, investiu em uma grande aventura ao ingressar pelos escaldantes desertos do Egito e escalar montanhas com seu superelenco e seus 25 mil extras (sabia dirigir cenas de multidões como nenhum outro). Durante a filmagem de uma das cenas no deserto, o cineasta sofreu um enfarte, mas não largou a produção (dirigiu cenas deitado em uma cama improvisada). Em verdade, foi o sucesso de outro espetáculo bíblico do diretor, Sansão e Dalila, (1949) com Victor Mature e Hedy Lamarr, que motivou DeMille a fazer um remake da saga de Moisés. Ele e sua equipe fizeram um estrondoso trabalho de estudo e pesquisa para a elevação desta superprodução, pois foram analisados 1.900 livros, colecionando 3.000 fotos, além de pesquisas em mais de 30 bibliotecas nos Estados Unidos, Europa, África e Austrália.

DeMille ainda visitou o Vaticano e avistou a famosa estátua de Moisés, de autoria de Michelangelo (1475-1564). Ele viu ligeira semelhança entre a famosa escultura renascentista com a fisionomia do ator Charlton Heston, e por isso o cineasta não teve dúvidas em escalá-lo para o papel principal. Heston, então com 32 anos de idade, era casado com a atriz e fotógrafa Lydia Clarke (1923-2018) e com um filho recém-nascido. O astro ganhou a simpatia do diretor, tanto que DeMille escalou o filhinho do ator, Fraser, para viver o “bebê Moisés”, retirado das águas pela filha do faraó, vivida por Nina Foch (1924-2008). Fraser Clarke Heston mais tarde se tornaria diretor, produtor, roteirista e ator, e chegou a dirigir o pai na aventura “Homens da Montanha” (1979) e em “A Ilha do Tesouro” (1990), co- estrelado por Christian Bale.

A trilha sonora é outro ponto marcante da superprodução. Ela seria composta inicialmente por Victor Young (1899-1956), que era compositor preferido de DeMille desde 1940, para quem fizera a belíssima composição de Sansão e Dalila (1949). Entretanto, Young adoeceu e viria a falecer pouco tempo depois, abrindo contratação para o jovem Elmer Bernstein (1922-2004), que fez uma trilha que se tornaria antológica para o mundo dos soundtracks. Bernstein ainda ficaria célebre em muitas outras composições para o cinema, entre os quais para o western “Sete Homens e Um Destino” (1960).

Rodado no Egito e em estúdios de Paris e Hollywood, e também no México, as filmagens começaram em outubro de 1954 no Sinai e a montagem consumiu nove meses. Só um ano foi de preparação do roteiro, escrito a seis mãos. O fotógrafo Lloyal Griggs (1906-1978), o mesmo de Shane (Os Brutos Também Amam), movimentou quatro câmeras Panavision frente a doze mil extras para a sequência do Êxodo. Além disso, foram usados doze estúdios em Paris e outros dezoito em Hollywood antes que todo filme rodado ainda ficasse nove meses nas salas de montagem até que pudesse estrear, finalmente, a 5 de outubro de 1956, nos Estados Unidos.

No Brasil, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, muito antes do advento do videocassete e das locadoras de vídeo, “Os Dez Mandamentos” de Cecil B. DeMille foi reprisado por quase 30 anos nos cinemas brasileiros (e muitas destas salas hoje já extintas), sempre nos períodos de Semana Santa ou Natal (desde seu lançamento no país em 1957, perdurando em reprises ao longo dos anos de 1960/70 até 1983). Na televisão brasileira, estreou num sábado à noite, a 28 de dezembro de 1985, pela Rede Globo, na sessão Supercine. E em 1989 foi lançado finalmente no mercado de vídeo brasileiro em VHS pelo selo da extinta CIC Vídeo.

Boas Festas! Feliz Natal e um próspero 2021 para os leitores e ouvintes da Web Rádio Vintage!

 

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, além de editor do blog Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema.

 

http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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