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Alan Ladd – O Trágico Astro de “Os Brutos Também Amam”
17/09/2020 16:52 em Novidades

Por Paulo Telles

 

Os Brutos Também Amam (Shane), realizado em 1953 pelo cineasta George Stevens (1904-1975) é um dos maiores clássicos da história do cinema, bem como um estudo acurado das contradições dos costumes norte-americanos, sendo este western estrelado por Alan Ladd (1913-1964) um dos símbolos máximos da cultura americana. É a história de Shane, um pistoleiro que resolve aposentar suas pistolas para viver em paz ao lado dos Starrett, vividos por Van Heflin (1910-1971) e Jean Arthur (1900-1991), casal de fazendeiros, e do filho deles, o pequeno Joey, interpretado pelo prematuramente falecido Brandon De Wilde (1942–1972). Toda projeção de Shane é evocada pela ótica de Joey, que idolatra o personagem central, que para defender os Starrett cancela seu retiro de paz e volta a empunhar nas armas, enfrentando um poderoso rancheiro e seu pistoleiro contratado, vivido pelo magistral Jack Palance (1919-2006). Os Brutos Também Amam consagrou o já famoso astro Ladd, que era contratado da Paramount (a produtora do filme), contudo as coisas começaram a sair da linha tanto na vida pessoal quanto profissional do ator.

Alan Ladd nasceu a 3 de setembro de 1913, em  Hot Springs, Arkansas. Filho único, perdeu o pai aos quatro anos de idade, e ele e sua mãe mudaram para Oklahoma, onde ela se casou novamente. Quando Ladd pôde cursar o colegial, passou a ser popular no grêmio escolar, onde acabou por se destacar em vários esportes, como o boxe e o futebol, e se tornou campeão de natação, inclusive, estava garantido para participar dos Jogos Olímpicos de 1932 em Los Angeles, representando os Estados Unidos nos saltos ornamentais. Pouco antes do início dos Jogos, Ladd sofreu uma queda na piscina, e a contusão fez com que ele fosse desligado da delegação. Ainda nesta fase, ele acabou se interessando por teatro, onde participou de pequenas peças no ensino médio no High School norte de Hollywood, onde acabou se graduando a 1º de fevereiro de 1934. Mesmo em sua imensa popularidade na escola, seus colegas observavam sua pequena estatura (1m65), e Ladd foi apelidado de Tiny (minúsculo).

No entanto, a pequena estatura de Ladd era um contraste com sua voz poderosa, e ele realizou alguns trabalhos de rádio como locutor, inclusive como ator. Foi através destes trabalhos pelo rádio que Ladd foi descoberto por uma agente e ex-atriz, Sue Carol, que tão logo o conheceu, passou a não somente agencia-lo como também tiveram um romance. Sue sugeriu a Alan que fizesse testes para o cinema. O teste que decidiu a carreira de Ladd no cinema foi para o filme O Primeiro Romance (Her first Romance), de 1940, dirigido por Edward Dmytryk (1908-1999). Dmytryk gostou muito dos testes com Ladd, incluindo sua voz. O diretor ainda perguntou se Alan tinha um smoking, e Ladd precisou alugar, afinal, havia sido contratado para o segundo papel importante. Alan e Sue tiveram uma relação conturbada, pois estavam apaixonados um pelo outro e ambos eram casados – Ladd com Marjoire (e com um filho) e Sue casada com um roteirista (com uma filha), e tiveram que esconder seus sentimentos por muito tempo, até que cada um deles se divorciou de seus conjugues e se casaram. Sue Carol conseguiu que Ladd tivesse importante participação em Alma Torturada (This Gun for Hire,1942), onde o ator demostrou qualidades distintas em sua première que muito iria caracteriza-lo – uma expressão dura alinhavada por sua marcante voz, mas ao mesmo tempo, poderia expressar também gentileza e sensibilidade, como o veríamos em Shane, em 1953.

Alma Torturada dirigido por Frank Tuttle (1892–1963), não teve apenas Alan Ladd como destaque, além de outra grande descoberta, a louríssima Veronica Lake (1922-1973), que juntamente com Ladd muito associou sua imagem ao ambiente noir dos grandes clássicos de Hollywood. Os dois vieram a formar uma dupla e fariam mais seis filmes juntos. Dentro da atmosfera nua e crua do noir americano, Ladd e Lake eram intitulados de O Casal dos filmes ao estilo dos anos de 1940, e mesmo porque os dois tinham muito em comum - a baixa estatura (Veronica media 1m57). No fim da década de 1940, Ladd era um dos maiores campeões de bilheteria da Paramount, arrecadando um total de 55 milhões de dólares, se tornando um verdadeiro Midas para o estúdio.

Em 1943 nasceu Alana Susan Ladd para completar a felicidade do casal Alan e Sue. O primeiro casamento de Ladd, bem como a existência de seu filho Alan Ladd Jr. (apelidado de Laddie) eram cuidadosamente omitidos pela imprensa, pois se revelados comprometeriam a imagem que o estúdio construíra para o ator. Nem mesmo a ridícula Louella Parsons (1881-1972), a maior fofoqueira de Hollywood, sabia desse casamento. Ainda bem!

Muito embora o Midas da Paramount fizesse grande sucesso de bilheteria, e em especial, para o público feminino, Alan Ladd ainda assim era um ser inseguro. Atrizes para serem suas parceiras ou par romântico nas fitas deveriam ser selecionadas criteriosamente, e não podiam passar de 1m60 de altura, ou se a atriz fosse acima de 1m65, altura de Ladd, este precisava subir uma plataforma, e foi o que aconteceu em A Lenda da Estátua Nua (Boy on a Dolphin, 1957), de Jean Negulesco (1900-1993), em que Ladd contracenou com Sophia Loren, 12 centímetros mais alta que o ator.

Mesmo com suas limitações físicas referentes à estatura, Ladd se tornou um dos mais lembrados cowboys do cinema a partir de 1948 em seu primeiro western e também seu primeiro filme em cores, Abutres Humanos (Whispering Smith). Mas um grande western, filmado em 1951 e lançado em 1953, marcaria para sempre a sua carreira, tanto que seu nome ficou associado de vez ao gênero, Os Brutos Também Amam (Shane). Findo seu contrato com a Paramount e evidentemente cansado de ser explorado pelo estúdio, abandonou a Paramount e se transferiu para a Warner Bros. Mas apesar da importância deste estúdio, nenhum filme que Alan fez para a WB foi tão marcante.

Em 1954 George Stevens estava preparando seu novo filme, Giant (Assim Caminha a Humanidade) para a Warner, e queria Alan Ladd no elenco. Este, por sua vez, lera o famoso best seller de Edna Ferber (1885-1968) e cogitava até trabalhar de graça para Stevens desde que interpretasse Bick Beneditct (papel que ficou para Rock Hudson). No entanto, o cineasta planejava para Ladd o papel de Jett Rink. Nesta altura, Sue Carol já perdia o controle sobre Ladd, e o outrora tino empresarial que ela tinha de início quando ambos se conheceram já havia perdido completamente o foco. Sue aconselhou a Ladd que de forma alguma ele poderia ser o vilão da história. Óbvio que Stevens lamentou a recusa do ator por péssima influencia da esposa. O papel acabou ficando com James Dean, cuja interpretação não agradou ao cineasta.

O drama na vida do ator começou em 1957, após as filmagens de A Lenda da Estátua Nua, filmado na Grécia. Mesmo acostumado com a humilhante situação de utilizar uma pequena plataforma para parecer mais alto, Ladd teve o maior constrangimento de sua carreira, pois sua parceira romântica era a estonteante e alta Sophia Loren. Como se não bastasse à humilhação de novamente subir numa plataforma, Alan ainda teve que servir de escada para Sophia, cuja carreira estava em ascensão. A fita de Jean Negulesco foi produzida para tornar Loren mais conhecida para o público norte-americano.

Com a carreira irremediavelmente em declínio, Alan Ladd acumulava fracassos, filme após filme, ou mesmo fora deles, uma série inexplicável de acidentes físicos. Alguns desses acidentes muito provavelmente causados pelo álcool que decididamente entrara em sua vida, tornando-se sua permanente companhia. O outrora Ladd, atlético e dedicado à boa forma física tomaria lugar de um homem arruinado física e internamente, praticamente sem sombra do ícone dos primeiros anos. Parou de fazer exercícios e se dedicou ao vício do álcool. A Imprensa maldava em cima do ator, que inseguro, refugiava-se cada vez mais na bebida e em tranquilizantes.

Em 1959 Ladd participou de dois filmes produzidos por sua própria companhia, a Jaguar Filmes, ambos resultando em fracassos financeiros.  As propostas para novos filmes não surgiam, afinal, como os produtores poderiam confiar e contratar um ator que se transformara numa ruína de si mesmo?  O rosto inchado e o corpo deformado em nada lembrava o atlético ator que tanta admiração causava nas plateias de cinema. Mesmo na fase péssima, em 1958, Ladd trabalhou num singelo western, que conseguiu aprovação da crítica e que é considerado seu melhor trabalho ao estilo depois de Shane: O Rebelde Orgulhoso (The Proud Rebel), dirigido pelo lendário Michael Curtiz (1886-1962), atuando com Olivia De Havilland (1916-2020), e com seu filho, David Ladd, estreando como ator infantil. David mais tarde seria importante produtor cinematográfico, e foi casado com a atriz Cheryl Ladd, uma das mais famosas Panteras da série de TV (1976-1981).

Em 1960, com a moda dos épicos Espadas & Sandálias em plena difusão, os cineastas europeus se lembraram de Alan Ladd e o convidaram para atuar em Duelo de Campeões (Orazi e Curiazi/Duel of Champions), dirigido pelo italiano Ferdinando Baldi (1917–2007) e pelo inglês Terence Young (1915-1994). Como se já não bastasse tantos problemas, Ladd se deixou levar em mais uma furada, talvez a pior de toda sua carreira. Odiou tanto o filme quanto os produtores, e chegou a abandonar as filmagens, porque não recebia o salário combinado. Talvez para felicidade de Ladd, este filme jamais chegou a ser exibido nos Estados Unidos, livrando o fragilizado ator de uma vergonha ainda maior.

Em 1962 Alan Ladd foi hospitalizado após ter disparado um revólver contra seu próprio corpo, perfurando um pulmão. A incoerente versão contada à imprensa desmentindo a tentativa de suicídio só reforçou todos acreditarem que o ator havia tentado mesmo se matar. Recluso a maior parte do tempo em um de seus dois ranchos, o Alsulan, próximo a Santa Barbara, Ladd se recusava a ler roteiros, pois sabia que não havia mais papéis para ele no cinema. Contudo, a Paramount resolveu produzir um filme baseado no estrondoso livro de Harold Robbins (1916-1997), Os Insaciáveis (The Carpetbaggers, 1964), e o estúdio convidou o ator a interpretar Nevada Smith. Edward Dmytryk, que fez o primeiro teste com Ladd em 1940, seria o diretor deste que seria a obra derradeira do astro.

Embora muito adaptado (o restante do livro de Robbins foi reaproveitado para o western Nevada Smith, de 1966, dirigido por Henry Hathaway e estrelado por Steve McQueen), o filme de Dmytryk rendeu bem nas bilheterias, e os críticos e a imprensa foram mais complacentes com o desempenho de Ladd, que ficou perfeito no papel, mesmo com sua imagem deteriorada. Neste período de 1963 a 1964, ele se mantinha afastado de Sue Carol.

Infelizmente, Alan Ladd não pôde ler as críticas positivas a respeito de seu último filme e sequer viu sua atuação, pois a 28 de janeiro de 1964 foi encontrado morto em um resultado de uma combinação fatal de bebida e sedativos para dormir. Nunca se conseguiu apurar se houve outra deliberada tentativa de suicídio ou se Alan não resistiu aos efeitos da mistura. Uma jornalista perguntou a Ladd, dois anos antes de sua morte: “O que você mudaria em si próprio, se pudesse?” A resposta do ator foi surpreendente: “Tudo! Eu mudaria tudo e teria feito tudo diferente na minha vida se pudesse”. Ao falecer, o patrimônio de Alan Ladd foi avaliado em seis milhões de dólares. Sue Carol permaneceu viúva pelo resto de sua vida, até falecer em 1982.

 

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, além de editor do blog Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema.

 

http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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