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As Aventuras Do “Zorro” - O Cavaleiro Solitário
13/08/2020 00:39 em Novidades

Por Paulo Telles

 

O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger) percorreu a imaginação de crianças e adultos ao longo destes 80 anos. Desde suas origens no Rádio americano, passando pelos quadrinhos, cinema e TV, este herói ganhou maior notoriedade graças à clássica série de TV exibida entre os anos de 1949 a 1957, com Clayton Moore (1914-1999) como o herói mascarado que, ao lado do índio Tonto, luta para manter a justiça, a lei e a ordem no primitivo Oeste americano. Aqui no Brasil o programa televisivo também fez muito sucesso, sendo exibido pelas emissoras TV Rio, Excelsior, Tupi, Gazeta e TVE.  

Entretanto, foi justamente no Brasil que este personagem recebeu erroneamente o nome de outro herói mascarado, Zorro, criação do escritor Johnston McCulley (1883-1958) em sua célebre obra literária A Maldição de Capistrano, cujas aventuras foram levadas às telas de cinema em versões com Douglas Fairbanks (1920), Tyrone Power (1940), Frank Langella (1974), Alain Delon (1975) e Antonio Banderas (1998), e ainda em seriado televisivo (1957-1961) feito pelos estúdios Disney, com Guy Williams. Este legítimo herói Capa & Espada da Califórnia espanhola nada tem a ver com O Cavaleiro Solitário do período do Velho Oeste americano.

Este equívoco entre os dois zorros no Brasil iniciou-se com a primeira publicação de O Cavaleiro Solitário em quadrinhos. Apenas um ano depois de ter sido publicado em tiras pelos jornais americanos, em 1938, o Gibi Trissemanal, complemento do Globo Juvenil, cujo editor chefe era o jornalista Roberto Marinho (1904-2003), lançou The Lone Ranger pela primeira vez em sua edição, saudando-o como o Campeão do Oeste e O mais famoso mocinho das histórias em quadrinhos. Mas, em vez da tradução literal para o português, O Cavaleiro Solitário (ou Vigilante Solitário), o herói foi batizado pelo Globo Juvenil como Zorro. Mais tarde, a partir de 1954, a Editora Brasil-América (EBAL), de propriedade de Adolfo Aizen (1907-1991), passa a publicar as aventuras de The Lone Ranger pelos quadrinhos (até 1985), ainda mantendo o nome de Zorro (a mesma editora também publicava o Zorro Capa & Espada). Um erro que causou confusão entre fãs e leitores durante anos e anos, confusão esta que se perpetua até hoje.

O Cavaleiro Solitário teve suas origens no Rádio, criado para uma série radiofônica por George W. Trendle (1894-1972), tendo suas primeiras histórias escritas por Fran Striker (1903-1962). Sua estreia foi a 30 de janeiro de 1933, quando o primeiro de seus 2.956 episódios foi ao ar pela rádio WXYZ (que mais tarde se tornou a Mutual Broadcasting Network). A série radiofônica foi transmitida até 1954. Vários elementos da série de rádio ficaram fazendo parte da mitologia do herói. A frase Hi Yo Silver, away! e o tema musical do Cavaleiro Solitário, um trecho da ópera A Abertura de Guilherme Tell – composta por Gioacchino Rossini (1792-1868), são algumas das lembranças mais marcantes. O Cavaleiro Solitário chegou até mesmo a ganhar uma versão brasileira pelo rádio em 1944, numa imitação chamada O Vingador, de Péricles do Amaral (1913-1975).

A origem deste Justiceiro Mascarado remonta a um ataque de uma famigerada quadrilha de pistoleiros e latifundiários contra seis Texas Rangers (policiais ou guardas que vigiavam a fronteira entre EUA e o México) comandados por certo Capitão Reid. Emboscados numa ravina estreita e de paredes altas, o único sobrevivente é exatamente o irmão mais novo do capitão, John Reid, a verdadeira identidade do Cavaleiro Solitário.

Abandonado para morrer no local, em agonia, Reid é encontrado pelo índio Tonto. Dias depois, ao recuperar os sentidos, o jovem se vê no interior de uma caverna, sendo tratado pelo amigo indígena. Após dias de recuperação, Reid e Tonto enterram os mortos, e para enganar a quadrilha, fazem uma sepultura a mais. E, ali, diante das seis sepulturas, John Reid passa a ser considerado morto, para sempre, pois ele resolve assumir um disfarce – uma máscara preta sobre os olhos feita com um pedaço do colete do irmão, exatamente a parte da roupa onde estivera pregada a estrela de prata de defensor da lei. Assim surge O Cavaleiro Solitário!

O cinema investiu no personagem. A Republic Pictures realiza em 1938 O Guarda Vingador (The Lone Ranger), seriado de 15 capítulos estrelado por Lee Powell (1908-1944) interpretando o herói. O bom êxito valeu uma continuação no ano seguinte, A Volta do Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger Rides Again), com Robert Livingston (1904-1988). Nos dois primeiros seriados, o parceiro de aventuras do herói, o índio Tonto, foi interpretado por Chief Thundercloud (1899–1955), um legítimo índio cherokee.

Finalmente O Cavaleiro Solitário chega aos lares americanos em 1949, ainda nos primórdios da televisão, sendo a primeira série de faroeste produzida pela TV americana. Clayton Moore, intérprete de vários seriados da Republic, foi escolhido para viver o personagem, e ao seu lado um autêntico índio mohawk nascido no Canadá, Jay Silverheels (1912-1980), como o índio Tonto. A série transformou os dois atores em astros da noite para o dia.

Embora com tanta popularidade alcançada graças ao carisma dos atores principais, um dos produtores da série decidiu demitir Clayton Moore em 1950, contratando em seu lugar o ator John Hart (1917-2009). Para que o público não percebesse a mudança, o produtor fez com que Hart usasse uma máscara maior para cobrir o máximo possível o seu rosto. A demissão de Clayton ocorreu sumariamente, sem qualquer explicação. Os fãs não haviam aceitado a troca e escreveram aos produtores exigindo a volta imediata do ator ao papel, e em 1953, Clayton voltou a usar a máscara.

Em 1956, O Cavaleiro Solitário passou a ser produzida a cores. A série foi cancelada em 1957, com um total de 221 episódios, dos quais Moore estrelou 169. O sucesso do programa ainda levou a serem produzidos dois longas-metragens para o cinema, ambos com Moore e Silverheels: O Justiceiro Mascarado (The Lone Ranger, 1956) dirigido por Stuart Heisler (1896-1979), e A Cidade do Ouro Perdido (The Lone Ranger and The Lost City of Gold, 1957) dirigido por Lesley Selander (1900-1979).

Em 2013, os estúdios Disney resolveram ressuscitar O Cavaleiro Solitário em filme dirigido por Gore Verbinski e estrelado por Johnny Depp como o índio Tonto e Armie Hammer no papel outrora vivido por Clayton Moore. Mas a produção foi um verdadeiro fracasso de crítica e bilheteria, mesmo valorizada com a presença de Depp. O herói foi transformado numa paródia, submetendo-se a situações absurdas e muitas vezes escrachado pelo próprio índio Tonto. A geração mais antiga que pôde acompanhar a série de TV com Moore recusou-se aceitar em ver seu herói como motivo de chacota. O Cavaleiro Solitário, em suas origens é um herói íntegro com personalidade forte, sério, que tinha elevada carga moral, suficiente para baixar sobre bandidos e malfeitores, em defesa da justiça, dos fracos e oprimidos, qualidades bem expressas pela clássica série de TV. Clayton Moore deve ter-se revirado no túmulo!

Mas as Aventuras do Cavaleiro Solitário não param por ai. No Brasil, a clássica série de TV com Clayton Moore está disponível no mercado de DVD pelo selo da Classicline, cuja loja virtual encontra-se on line em:

https://www.classicline.com.br/catalogsearch/result/?q=o+cavaleiro+solit%C3%A1rio&cat=.

Recordar não é viver: recordar é Reviver!

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, além de editor do blog Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema:

http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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