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Memórias do Dial: O Caso Ruy Bruno
24/01/2020 20:07 em Novidades

Um sujeito simpático, camarada e que, mesmo após sua convalescença, de nada se queixava: assim o radioator Ruy Bruno era descrito por seus colegas da Rádio Tupi. No trabalho, destacava-se por sua capacidade de imitar o sotaque árabe e o modo de falar dos locutores norte-americanos, mas nunca teve seu nome projetado por uma personagem de destaque limitando-se, em razão disso, aos papéis pequenos a ele confiados nas radionovelas. Pessoa de limitadas posses, ao adoecer viu seus problemas de saúde evoluírem a ponto de perder boa parte de seus movimentos. Foi internado no Hospital Barata Ribeiro, onde contou com a ajuda do respeitado médico Lutero Vargas – que precisou adiar os procedimentos cirúrgicos necessários ao caso em decorrência do avançado estágio da doença. A esperança de melhora do radioator estava no medicamento norte-americano conhecido como “ACTH” ou “Cortizone”, uma novidade na época que custava cerca de Cr$ 10.000,00, respeitável importância para os padrões de então, e que deveria ainda ser buscado nos Estados Unidos. Ruy Bruno não dispunha de condições financeiras para arcar com tais custos. 
Sensibilizado com a situação do radioator que, àquela altura, já se encontrava paralítico, Anselmo Domingos, diretor geral da Revista do Rádio, na edição nº 53 de 12/09/1950, iniciou uma campanha (estendida nas publicações seguintes) para angariar fundos junto a radialistas e ouvintes, de forma a levantar a quantia necessária para a compra do “Cortizone”. As doações eram realizadas na sede da Revista do Rádio, no Centro do Rio de Janeiro, e foram iniciadas pelo comunicador Átila Nunes, no valor de Cr$ 500,00. A lista foi seguida pela atriz portuguesa Beatriz Costa, que doou mais Cr$ 500,00, enquanto um jovem comediante chamado Francisco Anysio contribuiu com Cr$ 150,00. Aos poucos, mais e mais doações foram se somando ao montante principal: na Rádio Tamoio, Radamés Celestino organizou uma lista entre os funcionários da emissora, reunindo o valor de Cr$ 2.140,00, enquanto um grupo de artistas da Rádio Tupi arrecadou Cr$ 3.155,00. Artistas das rádios São Paulo e Cultura, ambas de São Paulo, levantaram a importância de Cr$ 1.650,00, enquanto anônimos também colaboraram com diferentes valores, assinando como “Fã de Ruy Bruno”, “Uma Baiana”, “Funcionários da Revista do Rádio” e “Uma Fã”. No entanto, a doação mais substancial partiu da Rádio Nacional: Victor Costa, então CEO da emissora, além de lançar mão de suas reservas pessoais em Dólar depositadas nos Estados Unidos para cambiar de forma mais célere o valor correspondente ao medicamento, entregou à campanha uma doação no valor de Cr$ 10.000,00, resultante de uma “vaquinha” organizada por ele junto a outros executivos da emissora. No total, a Revista do Rádio arrecadou Cr$ 31.645,00, dos quais Cr$ 15.000,00 foram gastos com na compra da medicação pretendida, enquanto Cr$ 16.645,00 foram entregues a Ruy Bruno. 
Assistido pela ABR – Associação Brasileira de Rádio, que se esforçou para superar os entraves burocráticos que poderiam atrasar a chegada do “ACTH” ou “Cortizone” ao Brasil –, Ruy Bruno iniciou o seu tratamento e a Revista do Rádio encerrou a campanha. “Daqui expressamos os nossos melhores agradecimentos a todos quantos colaboraram conosco. Não devemos aqui destacar nomes porque os que cooperaram não o fizeram com esse sentido”, publicou a revista no editorial do número 60. Ao longo do ano seguinte, Ruy Bruno teve um quadro de melhora em sua saúde. Na edição nº 74, lançada em 06/02/1951, em sua seção de cartas, a Revista do Rádio dava conta de que o radioator “estava quase bom”. Mas a verdade é que, submetido a diferentes intervenções cirúrgicas entre as “idas e vindas” da doença, Ruy Bruno não alcançou a esperada cura. Sua situação se agravou e, em 19 de julho de 1952, o radioator faleceu. Ruy Bruno foi sepultado a 20 de julho de 1952, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro. Sobre o fato, nenhuma nota nos jornais – apenas silêncio. Seu enterro, quase vazio, foi custeado pela ABR. Na edição nº 1225, publicada um mês depois no Suplemento “A Noite Ilustrada”, o colunista Nestor de Holanda comentava: “Como a cura não veio, os olhos de Ruy Bruno se fecharam e ele teve de morrer sem deixar nome, sem deixar descendentes, sem deixar ninguém. (...) Esquecido como viveu, morreu”. 
Apesar de seu desfecho trágico, o Caso Ruy Bruno é um interessante exemplo da capacidade de mobilização dos meios de Comunicação no sentido de sensibilizar a opinião pública em torno de uma causa solidária. É também exemplo de altruísmo por parte dos profissionais da área e do público em geral. Mas é também um ponto de reflexão, já que estes mesmos meios de comunicação renegaram ao esquecimento o mesmo caso que tanto ajudaram a projetar, talvez porque o assunto simplesmente não lhes interessasse mais.

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