Volume
Rádio Offline
Redes
Sociais
Cine Rádio: Polêmica Visita de Ava Gardner no Rio de Janeiro em 1954
01/06/2022 13:23 em Novidades

                                                                                                                     Por Paulo Telles

 

Já se passaram quase 70 anos quando o “animal mais belo do mundo” de acordo com Jean Cocteau (1889-1963), poeta e cineasta francês, que a diva Ava Gardner (1922-1990) passou um período na “Cidade Maravilhosa”em 1954.  Tal evento deixou registros muito importantes, que nem mesma a atriz descartou em sua autobiografia “Ava-My Story”, lançada no Brasil pela Editora L&PM, um ano depois de seu falecimento, a 25 de janeiro de 1990.

Entretanto muitos destes registros de Avano Rio de Janeiro ainda são controversos. De um lado, histórias populares do julgo dos cariocas e artistas que testemunharam os rompantes da atriz. De outro, de comentários a respeito que levam a um cantor brasileiro muito famoso na época, que teria “negado fogo” à estrela. E de outro, a própria Ava a declarar o que ocorreu em sua estadia no ano de 1954, segundo sua autobiografia publicada pouco depois de sua morte.

Ava Lavinia Gardner, considerada a mais espetacular estrela de Hollywood daqueles tempos, havia chegado ao Rio de Janeiro naquele ano trazida pela United Artists para divulgar seu filme mais recente, “A Condessa Descalça” (The Barefoot Contessa, 1954), de Joseph L. Mankiewicz (1909-1993) e com Humphrey Bogart (1899-1957).Noauge da beleza dos seus 32 anos,ela já havia cunhado o epíteto promovido por Jean Cocteau, que a perseguiria pelo resto de sua tumultuada vida.Foi pouco depois do suicídio do Presidente da República Getúlio Vargas, e os agentes da atriz até temiam que uma revolução pudesse eclodir no Brasil. Entretanto, o tumulto que de fato ocorreu foi de outra ordem. Quando Ava chegou ao aeroporto do Galeão, a multidão que a aguardava quebrou a barreira policial e invadiu a pista. A passagem da atriz pelo Rio de Janeiro foi muito tumultuada, e ela reclamou das "mãos-bobas" no aeroporto. Quando a atriz finalmente conseguiu chegar a um táxi, o carro não conseguiu partir, então ela teria batido na cabeça do motorista com seu sapato. Entretanto, tal coisa não aconteceu, caso contrário o chofer daria queixa na polícia e teríamos um BO com o nome da atriz como acusada de agressão para registro policial.

Houve sim muitas euforias quanto à visita de Ava, principalmente do público masculino. Em realidade, tais aclamações incomodavam a estrela que detestava elogios e bajulações. Mas o Rio de janeiro, que até hoje de forma provinciana recebe artistas menores como deuses, estava literalmente aos pés de uma grande e verdadeira estrela do cinema internacional. Conta-se que o Hotel que ela ficaria hospedada e a qual os agentes haviam reservado para atriz, o Hotel Glória, na região que saí do centro do Rio em direção á Zona Sul, Ava não teria gostado das instalações, e imediatamente, exigiu ser hospedada no famoso Copacabana Palace.

Numa discussão com o gerente do Hotel Glória, bebidas foram atiradas ao chão, e segundo o que se chegou à imprensa, ela teria quebrado objetos no estabelecimento. Ava, como uma prima dona, realmente tinha um temperamento forte, o que a fez protagonista de um fantástico barraco, seja porque bebeu demais, ou porque não gostou da suíte que recebeu, ou mais provavelmente pelos dois motivos. Seja como for, foi o que se divulgou durante muito tempo, com ares de boatos e fofocas, dúvidas e incertezas, mesmo considerando o temperamento forte da atriz. Mudando para o Copacabana Palace, foi recepcionada pelo playboy Jorginho Guinle (1916-2004), um dos donos do hotel, que costumava receber com todas as mordomias as estrelas de Hollywood com intuito de levá-las para a cama, mais pelo desfrute de se gabar do que propriamente pelo sexo. Durante toda sua vida, Guinle declarouque “fez amor” com todas elas. Mas a estrela também pôde contar com a recepção de artistas brasileiros e celebridades de nossa cultura, como o ator José Lewgoy (1920-2003). Entretanto, a mudança de um hotel para outro não livrou Ava de boatos e confusões.

Já naquela época eram muito notórias as investidas de Ava com o álcool. A atriz começou a beber após sua união com Frank Sinatra (1915-1998), com quem ficou casada entre 1951 a 1957, pois segundo declarações da estrela em sua autobiografia, ela bebia para acalmar-se dos problemasde seu casamento com o cantor. Mas foi no Copacabana Palace que alguns dos hóspedes presenciaram um momento de desatino da estrela, quando de pileque resolveu “dar em cima” de um crooner da orquestra do maestro Copinha (1910-1984). Seu nome era Carlos Augusto (1931-1968). Descoberto por Ary Barroso (1903-1964), não demorou muito para o cearense Augusto chegar ao estrelato. Passou pelas mãos de Almirante e Paulo Gracindo, selando seu sucesso ao lado de Emilinha Borba (1923-2005) em turnêpelo norte do país. Carlos Augusto chegou a ter um caso amoroso com a atriz. Entretanto, quando Ava o chamou para sua suíte, parece que o cantor se intimidou com aquela beleza deusesca, monumento de desejo que até o mais simples dos mortais sempre desejou - pelo menos, em sonhos. Reza à lenda queAugusto “negou fogo” à atriz, talvez achando que ela fosse muita “areia para o seu caminhãozinho”. Até lembra uma cena de “A Condessa Descalça”, onde Maria Vargas (personagem de Ava Gardner) esta num veleiro, e com um maiô bem sensual, aos olhos dos frequentadores.Todos ficam atraídos e desejosos em possuí-la, mas ninguém a leva, por pura timidez.

Carlos Augusto tinha fama de conquistador, mas se intimidou quando viu aquele mulherão, e para “vergonha nacional”, brochou conforme o dito popular. Carlos foi expulso por Ava da suíte, mas como ela estava um tanto agitada, não se deu por vencida e desceu para o bar, pedindo mais um Martini. Anselmo Duarte (1920-2009), muito mais bem apanhado que Carlos Augusto, se insinuava para Ava, mas esta não deu a mínima bola ao eterno galã dos antigos clássicos da Atlântida. Já Carlos Augusto, prosseguiu com sua carreira como cantor durante 15 anos, chegando a gravar 40 discos 78 RPM e seis LPs, participando também de diferentes coletâneas, atuando nas gravadoras Sinter, Polydor, Odeon e Philips, até falecer em trágico acidente automobilístico em 26 de outubro de 1968.

Durante seus últimos momentos no Copacabana Palace, Ava impressionou a todos com a quantidade de bebida que consumia, a ponto de um jornal publicar uma charge onde havia um copo com as medidas “para mulheres”, “para homens”, “para cavalos” e a máxima, “para Ava”. No fim, ela trancou-se em sua suíte o tempo todo encurtando sua visita, mas dizem que saiu na última madrugada para conhecer o restante da cidade.Concedendo uma entrevista, declarou que “A Condessa Descalça” era seu filme favorito e que estava no Brasil divulgando um esplendoroso trabalho, seguido de “Mogambo”, realizado por John Ford (1895-1973) no ano anterior e disse que “Os Cavaleiros da Távola Redonda” com Robert Taylor (1911-1969) era o seu pior filme. Mas apesar dos dissabores aqui vividos, certamente os fãs brasileiros mais esclarecidos admiravam não somente sua beleza, mas seu impecável talento como atriz. O legado de Ava Gardner é uma marca registrada de um período de ouro do cinema, período este de saudosas constelações, com seus eternos astros e estrelas de um passado já distante.

Em sua autobiografia, Ava dedicou algumas linhas à sua passagem pelo Rio de Janeiro. Não citou um nome sequer e nem se referiu a nenhum caso amoroso. Vamos ao texto abaixo, reproduzido do livro “Ava Gardner – Minha História” - Capítulo XXII, Página 221.Editora L&PM :

A United Artists não tinha nos colocado no hotel que eu havia pedido, mas sim numa espelunca que cheirava a fumaça e tinha mais queimaduras de cigarro do que a Carolina do Norte inteira. Por isso me mudei calmamente para o hotel que eu queria. Na manhã seguinte, no entanto, os jornais contaram uma história completamente diferente. Eu tinha chegado bêbada, fazendo confusões, descalça (era verdade que eu tinha chegado descalça, pois o salto do meu sapato quebrara quando fui amassada por uma multidão no aeroporto). Eu destruíra meu quarto, e a gerência do hotel, para provar a coisa, logo chamou fotógrafos, sem ter outra opção a não ser me expulsar.

O que realmente aconteceu foi que o hotel, numa espécie de vingança por eu ter decidido me mudar, contratou um verdadeiro exército destruidor menos de uma hora depois que saí. Quebraram todos os espelhos, atiraram garrafas de uísque por toda parte, destruíram a mobília, arrasaram literalmente com tudo.

Nem vamos considerar que eu não teria conseguido fazer todo aquele estrago mesmo com machados e uma semana para trabalhar. Todos acreditaram nas manchetes. Nem uma entrevista à imprensa e nem uma desculpa do governo brasileiro fizeram com que a verdade vencesse a mentira nos jornais do mundo inteiro”.

Por mais de dois anos, Ava Gardner esquadrinhou suas memórias, preenchendo noventa fitas cassetes com reminiscências de sua vida, desde sua infância de filha de agricultores até sua transformação numa legendária estrela de Hollywood. Ela gravou a última fita poucos meses antes de sua morte repentina, em janeiro de 1990, aos 67 anos de idade.

Paulo Telles é radialista (DRT 21959/RJ), crítico de cinema, escritor, produtor e apresentador do programa “Cine Vintage”, redator do blog “Filmes Antigos Club – a nostalgia do cinema” e colunista do site “Cinema com Poesia”. .

Acompanhe as matérias do “Cine Rádio” todo mês aqui no setor de notícias na Web Rádio Vintage.

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Vintage Educação