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CINE RÁDIO: Revisitando o Astro Mirim Pablito Calvo, e seu “Marcelino Pão e Vinho”
07/04/2022 22:56 em Novidades

Por Paulo Telles

 

O filme Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan Y Vino) fez o mundo chorar no ano de 1955, encantando plateias por suas reprises nos cinemas até meados da década de 1970 e também pelas exibições na TV. Produzido e dirigido pelo húngaro Ladislao Vajda (1906-1965), foi realizado na Espanha e estrelado pelo menino Pablito Calvo (1948-2000), sendo laureado por Menção Honrosa do Festival Internacional de Cinema de Cannes no mesmo ano. A fita conta a saga de Marcelino, um menino deixado na porta de um mosteiro ainda bebê e criado por 12 frades franciscanos (uma alusão aos 12 apóstolos de Cristo).

Aos seis anos, Marcelino é um menino de imaginação fértil e com tendência a travessuras. Certo dia, ele oferece um pedaço de pão e um pouco de vinho a uma imagem de madeira de Jesus Cristo crucificado, que aceita a oferta e passa a conversar com a criança. É o início de uma grande amizade e de um milagre que modificará para sempre a vida dos moradores do vilarejo onde vivem os frades. Baseado em livro publicado em 1953 do escritor espanhol José María Sánchez Silva (1911-2002), que por sua vez inspirou-se na infância de São Marcelino de Champagnat (1789-1840), fundador do Instituto dos Pequenos Irmãos de Maria e das Escolas dos Irmãos Maristas, Marcelino Pão e Vinho obteve recordes de bilheteria em todo mundo e um turbilhão de choros e lenços. Contudo, todo sucesso do filme não seria possível sem a presença e o carisma do intérprete principal, Pablito Calvo, então com sete anos de idade.

Pablo Calvo Hidalgo nasceu em Madrid em 16 de março de 1948. Ele entrou para o cinema quando sua avó o levou para fazer um teste nos Estúdios Chamartín, na Espanha, que procuravam uma criança para viver o menino Marcelino no filme de Vajda.  Com o sucesso da produção, Pablito tornou-se astro da noite para o dia. Para o mesmo diretor ainda estrelou O Garoto e o Vagabundo(Mi tío Jacinto, 1956) e Um Anjo Nasceu no Brooklyn (Un Angelo è Sceso a Broklyn, 1957) com o inolvidável ator inglês Peter Ustinov (1921-2004), entretanto, sem repetir o mesmo êxito de Marcelino. Em 1958, Pablito estrelou com o célebre comediante italiano Totò (1898-1967) Totò e Marcelino (Totò e Marcellino, 1958), feito na Itália por Antonio Musu (1916–1979). 

Em 1959, Pablito chegou ao Brasil para divulgar Totò e Marcelino, desembarcando no Rio de Janeiro diante de uma multidão de fãs que foram esperá-lo no aeroporto do Galeão. Marcelino Pão e Vinho havia feito muito sucesso no Brasil e ainda era muito lembrado pelos fãs. Contudo, os filmes mais recentes estrelados pelo astro mirim posteriores a Marcelino passaram quase que despercebidos no Brasil. Por razões de contrato, Pablito tinha que falar sobre seu mais recente trabalho, e não falar ou fazer referências ao seu maior sucesso nas telas. Sem sua atuação ingênua e cativante, o filme dificilmente teria alcançado tanto êxito, a ponto de se tornar um Cult católico, sendo recomendado por padres e seminaristas. 

Tristemente, a visita do ator mirim ao Brasil atraiu toda a atenção do público e da imprensa, mas decepcionou pelo gênio temperamental do menino. Durante recepção oferecida pela embaixada da Espanha no Rio de Janeiro, permaneceu apenas 19 minutos no evento, não deu uma só palavra e sorriu apenas uma única vez, ao ser beijado pela atriz Renata Fronzi (1925-2008). No Palácio do Catete, não deu atenção ao então Presidente da República Juscelino Kubitschek (1902-1976), se recusando a responder às suas perguntas. Pablito ainda participou do programa radiofônico de Paulo Gracindo (1911-1995) na Rádio Nacional e se apresentou na TV Tupi do Rio de Janeiro. Sem poder cantar ou representar  Marcelino, Pablito chegou a dar uma entrevista para a atriz mirim Vera Lúcia (futura mãe do ator e apresentador Rodrigo Faro). O programa foi patrocinado por uma famosa marca de biscoitos, que Vera ofereceu a Pablito durante a entrevista. Ele provou e fez cara feia, dizendo que era o pior biscoito que já comera na vida, tudo televisionado nos tempos em que os programas de TV eram realizados ao vivo (não havia Vídeo Tape!).

Pablito também esteve em São Paulo, e a TV Tupi paulista o queria para um teleteatro interpretando seu mais famoso personagem, mas não foi possível por proibição de contrato. O jeito foi procurar outra criança para estrelar a telepeça que recontaria a história de Marcelino. Após uma longa busca, escolheram Waldir Galdi para o papel. Aos 11 anos, Pablito já se sentia sufocado pela fama e vida artística, e sem mais ânimo para o estrelato. Foi tachado de mimado e antipático pela imprensa brasileira por não querer conceder entrevistas. Numa breve conversa com um jornalista da revista O Cruzeiro, disse que não queria ser ator quando crescesse, mas sim engenheiro. Ele faria seu último filme em 1962, atuando em Barcos de Papel, filme argentino que tinha no elenco o ator Jardel Filho (1927-1983). Com a voz alterada pela adolescência, teve que ser totalmente dublado. Depois abandonou o cinema, para nunca mais voltar!

Pablito cumpriu seu propósito de vida. Tornou-se um bem sucedido engenheiro industrial. Passou a vida adulta trabalhando no ramo imobiliário e turístico na cidade de Torrevieja, na costa da Espanha. Ao contrário do personagem que tanto lhe rendeu popularidade, na vida real o ex-ator não tinha crenças religiosas e sempre afirmou não sentir saudades de Marcelino ou de seus tempos de ator, recusando a dar maiores declarações a respeito. Em 1976, Calvo casou-se com Joana Olmedo, com quem ficou casado até sua morte em 1º de fevereiro de 2000, vítima de um derrame cerebral. Pablito Calvo tinha apenas 51 anos de idade.

 

Paulo Telles é radialista (DRT 21959/RJ), crítico de cinema, escritor, produtor e apresentador do programa CINE VINTAGE, redator do blog FILMES ANTIGOS CLUB – A NOSTALGIA DO CINEMA e colunista do site CINEMA COM POESIA.

Filmes Antigos Club – A Nostalgia do Cinema

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