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CINE RÁDIO: Revisitando O Céu Mandou Alguém (1948) – A trajetória dos “Três Reis Magos” do Velho Oeste
04/12/2021 15:46 em Novidades

 

Por Paulo Telles

 

Soberbo poeta, como ninguém soube contar a trajetória da civilização americana. O cineasta John Ford (1895-1973), muitas vezes taciturno e mal humorado, também era capaz de ser sensível, tanto que tinha um carinho enorme pelo livro de Peter B. Kyne (1880-1957), Three Godfathers, cuja história se passava no Oeste bravio, reunindo em seu bojo todos os ingredientes caros ao cineasta – o elogio à camaradagem, a saga se unindo ao humor, a bravura se conciliando com a nostalgia, e a ação de indivíduos inóspitos em um meio circundante e ameaçador. Principalmente, a perfeita união da violência e da singeleza que Ford sempre tratou com sua infinita candura, onde soube ilustrar soberbamente aventuras viris, epopeias em imagens épicas de fulgurante plasticidade, nas sábias palavras do saudoso crítico de cinema carioca Paulo Perdigão (1939-2006).

O romance de Kyne tanto se ajusta na veia homérica e romântica do cineasta que ele filmou duas vezes. A primeira versão em 1919, estrelada por Harry Carey, intitulada Homens Marcados/Marked Men. Trinta anos depois, Ford dirige um remake com John Wayne (1907-1979), que tem a honra de repetir o papel que foi de seu próprio ídolo, Harry Carey – O CÉU MANDOU ALGUÉM/3 Godfathers – e Wayne, juntamente com Pedro Armendariz (1912-1963) e Harry Carey Jr (1921-2012),formam um triangulo de aventuras, onde lhe são impostos grandes desafios. Rodado em apenas 32 dias, em dezembro de 1948, esta obra fordiana (quase que ignorada injustamente pelos críticos) foi um exemplo impar na história de Hollywood. A começar com seu diretor, que dedicou a fita em memória de Harry Carey (1878-1947), astro da primeira versão e astro principal dos primeiros filmes do cineasta em seus westerns iniciais, apresentando em seu prólogo como “a estrela brilhante do velho céu do Oeste”. Em outro gesto de amizade, Ford ainda ofereceu um dos papéis principais ao filho do homenageado, Harry Carey Jr. E como não podia deixar de ser, o lendário diretor ainda se cercou de velhos companheiros, a sua Ford’s Stock Company, entre os quais se destacam Ward Bond (1905-1960), Mildred Natwick (1905-1994), Jane Darwell (1880-1967), Jack Pennick (1895-1964), Mae Marsh (1895-1968),Hank Worden (1901-1992), e o irmão do cineasta, Francis Ford (1880-1953), e ainda dando a primeira chance ao iniciante Ben Johnson (1918-1996), que tempos depois brigaria com o ator, expulsando-o de suas produções, quase chegando ao ponto depersegui-lo em Hollywood com intuito de boicota-lo.

O Céu Mandou Alguém foi à segunda experiência de Ford com a Cor (a primeira havia sido em 1939, com Ao Rufar dos Tambores), se revestindo de esplendorosa beleza romântica, cuja responsabilidade em parte se deve ao competente fotógrafo Winton C. Hoch (1909-1979), que Ford voltaria a escala-lo para fotografar em Legião Invencível (1949), Depois do Vendaval (1952), e Rastros de Ódio (1956). No entanto, é um western diferente de tudo que se viu, e talvez por este motivo fosseignorado e quase esquecido por grande parte dos historiadores de cinema, já que Ford sempre foi considerado um dos grandes mentores do gênero. No Brasil, foi lançado em 1949 e nunca reprisado nas salas de exibição. Entretanto, não deixa de ser uma das realizações mais magistrais do diretor, ao levar para as plateias uma alegoria sobre os Três Reis Magos e sua viagem a Belém para ver o Menino Jesus, aqui representado por três Foras-da Lei, vividos respectivamente por Wayne, Armendariz, e Carey Jr, que se tornam os Três Padrinhos como condiz o título original.O enredo começa com Os Três Padrinhos chegando à cidade de Wellcome, no estado do Arizona. São eles Robert Marmaduke(John Wayne), William Kearney (Harry Carey Jr.) e Pedro "Peter" Roca Fuerte (Pedro Armendariz). Eles pretendem assaltar o banco local. A princípio, não parecem violentos ou cruéis. O trio logo tenta fazer amizade com alguns moradores da região. O primeiro com quem puxam conversa é Perley ‘Buck’ Sweet (Ward Bond), um homem simpático, bem casado e que gosta de cuidar do jardim de sua casa, mas o que o trio ignorava é que esse homem é o delegado da cidade. Sweet, que é bom de prosa, serve café para os convidados, mas ele tem um sexto sentido. Alguma coisa lhe diz que os forasteiros não vieram com intenções nada boas.

No momento que ele reconhece a foto de um deles num arquivo de procurados pela justiça, acontece na rua um tiroteio. É o bando colocando o plano do assalto em prática. Eles fogem para o meio deserto. No percurso, com um deles baleado e todos morrendo de sede, os três padrinhos encontram com uma carroça abandonada.Dentro há uma mulher (Mildred Natwick) que acabou de dar à luz a um menino. Ela está muito fraca e parece que não vai resistir. Antes de morrer, porém, pede que eles cuidem da criança. A partir dali, nada terá mais importância na vida dos Três Padrinhos, a não ser dar conta da missão que lhes foi confiada. Os homens iniciam sua jornada em busca não apenas da salvação do bebê, mas também da própria redenção pessoal (embora só Robert a terá em vida, já que pelo caminho seus dois amigos acabam morrendo pelo deserto), e tamanha redenção acontece aos poucos durante toda a trajetória do filme.

O Céu Mandou Alguém foi a quarta versão cinematográfica do romance de Kyne, pois além do filme de Ford de 1919, houve uma anterior em 1916, dirigido por Thomas Ince, The Last Chance Saloon, e em 1929 Heróis do Inferno/Hell’s Heroes, dirigido por William Wyler, além de Os Três Padrinhos/Three Godfathers, realizado em 1936 por Richard Boleslawski e com Chester Morris. Em 1974 houve uma quinta versão do livro, desta vez para a televisão, O Afilhado/The Godchild, dirigido por John Badham e estrelado por Jack Palance. O filme foi produzido por John Ford pela sua própria firma, a Argosy Picture, de parceria com Merian C. Cooper (1893-1973), o responsável pelo clássico King Kong de 1932.

 

Paulo Telles é crítico de cinema, escritor, produtor e apresentador do programa Cine Vintage, redator e editor do blog Filmes Antigos Club – A Nostalgia do Cinema e colunista do Cine Retro Boavista no site CINEMA COM POESIA:

 

http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

https://cinemacompoesia.wordpress.com/

 

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