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Cine Rádio: A História de Samuel Bronston - O Pequeno Grande Produtor Que Ruiu
03/08/2021 17:22 em Novidades

Por Paulo Telles

Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas certamente, já tenha assistido algum filme que produziu.  E quem assistiu a estas grandes superproduções do cinema talvez até tenha reparado seu nome nos créditos, emRei dos Reis (King of Kings, 1961), El-Cid (El-Cid, 1961), 55 Dias em Pequim (55 Days at Peking, 1962), A Queda do Império Romano (The Fall of The Roman Empire, 1964) e O Mundo do Circo (Circus World, 1964).

Falaremos de Samuel Bronston (1908-1994), magnata produtor de cinema que tinha sonhos de grandeza muito além de sua estatura.  Nascido na Bessarábia (hoje República da Moldávia) a 26 de março de 1908, Bronston era um homem baixo (cerca de 1,60 m de altura), mas compensava sua baixa estatura com um intenso espírito empreendedor e criativo. Assim que era definido por amigos e pessoas que o conheceram. Mas, apesar destas qualidades, acabaria financeiramente quebrado. E por quê? As explicações são variáveis. Bronston tinha realmente uma ligeira capacidade de criação, mas não de controle sobre os filmes que veio a produzir. Distante de ser um visionário, Bronston acreditava na proliferação do cinema como arte. Seu otimismo era inesgotável e sua consistência insaciável para gerar projetos que lhe pareciam viável. Seria um produtor perfeito se não fosse, lamentavelmente, por demais extravagante, perdulário e desorganizado.Vindo de uma família de nove irmãos, onde todos tiveram formação acadêmica (médicos, advogados, músicos e artistas), Samuel Bronston se formou no Sorbone University, em Ciências Políticas. Também se dedicou a música como integrante da Orquestra Sinfônica de Paris como flautista antes de iniciar sua carreira como produtor em Hollywood. Para título de curiosidade, era sobrinho de Leon Trotsky (1879-1940), famosa figura do socialismo assassinado em 1940 por um estudante, cujo fato deu origem a um filme estrelado em 1972, O Assassinato de Trotsky (The Assassination of Trotsky), de Joseph Losey, com Richard Burton e Alain Delon.

Bronston passou três anos em Paris. Por lá, viveu aventurescamente, chegando a bajular e enganar pessoas pelas ruas. Voltou para os Estados Unidos convicto que poderia conseguir seus objetivos desde que fosse o suficientemente simpático, algo que acreditou durante seus anos em Hollywood. Com US$ 75.000 dólares conseguidos durante seu período na Holanda trabalhando na área empresarial da família, Bronston comprou uma casa confortável em Beverly Drive, em Los Angeles, onde ficou por dois anos e meio sem concretizar algum tipo de serviço, até conhecer Budd Schulberg (1914-2009), executivo de Hollywood que o levou a fazer um curso na Universidade de Columbia para saber tudo que pudesse sobre a arte de se produzir filmes. Concluído com louvor seu curso, passou a produzir filmes como As Aventuras de Martin Elder (The Adventures of Martin Elder, 1942) com Glenn Ford, e Cidade Sem Homens (City Without Men, 1943) com Linda Darnell.

Após produzir Jack London (Jack London, 1943) com Susan Hayward, Bronston ainda ficou mais um período fora de Hollywood viajando por dez anos pela Europa, penetrando na área cinematográfica de outros países para conseguir mais experiência. Durante este longo período, Bronston se apaixonou pela Espanha, e quando finalmente se achou com firmeza para iniciar a fase das superproduções, inaugurou seus estúdios em terras espanholas. Em verdade, foi um pioneiro na prática de introduzir grande escala de produções na Espanha a fim de reduzir os enormes custos em Hollywood. O sucesso de seus filmes ajudou a construir seu mega-gigantesco estúdio em Las Rozas, perto de Madrid.

Bronston frequentemente trabalhava com uma equipe regular de artistas criativos e renomados: os cineastas Anthony Mann (1906-1967) e Nicholas Ray (1911-1979); os roteiristas Philip Yordan (1914-2003) e Jesse Lasky Jr (1910-1988); os compositores Miklos Rozsa (1907-1995) e Dimitri Tiomkin (1894-1979); os produtores Jaime Prades (1902-1981), Alan Brown e Michal Waszynski; o diretor de fotografia Robert Krasker (1913-1981) e o editor Robert Lawrence. Ele também favoreceu Charlton Heston e Sophia Loren como seus atores principais.

Dando início aos trabalhos em seus estúdios na Espanha, Bronston ambiciosamente levou as telas um épico sobre a vida de Jesus Cristo, Rei dos Reis (King Of Kings, 1961) e escolheu Nicholas Ray para dirigi-lo. Com a Metro Goldwin Mayer (MGM) ajudando na distribuição e produção, o filme não obteve o sucesso tão esperado por Bronston nas bilheterias. Isto porque que o produtor interferia muito no trabalho de Ray e em sua inspiração, chegando mesmo o diretor a se afastar antes do fim da produção. O filme acabou sendo editado pela MGM com 168 minutos de projeção ao invés das poucas mais de 3 horas projetadas para o espetáculo.  Contudo, esta perda nas bilheterias foi logo sanada com El-Cid (El-Cid, 1961), com um investimento milionário de mais de US$ 6.000.000,00 (seis milhões de dólares). Dirigido por Anthony Mann, arrecadou impressionantes US$ 26.000.000,00 (vinte e seis milhões de dólares) só no mercado norte-americano e, pelo menos, um pouco mais que isso no restante do mundo, tornando um dos filmes mais bem sucedidos da época. Era o início de uma fase brilhante para Bronston, brilho este que, infelizmente, não se estenderia por muito tempo.

Imediatamente após esta largada inicial de sucesso, Bronston tentou garantir serviços com Charlton Heston, o astro de El-Cid, para o projeto seguinte, A Queda do Império Romano (The Fall of The Roman Empire, 1964). O produtor avaliou que o sucesso estrondoso de El-Cid se deveu ao poder dos astros Heston e Sophia Loren como protagonistas e campeões nas bilheterias, algo que segundo Bronston faltou em Rei dos Reis, ao escalar um ator que fora ídolo juvenil para o papel de Cristo, Jeffrey Hunter (1926-1969). Entretanto, Heston viu similaridades com o papel oferecido a ele com o herói que interpretou emBen-Hur (Ben-Hur, 1959), interpretação que dera a ele o Oscar de Melhor Ator. Com a recusa de Heston, o papel foi oferecido e aceito por Stephen Boyd (1931-1977), que havia sido o vilão Messala em Ben-Hur, tendo Sophia Loren novamente como estrela de sua nova e faraônica produção.

Como era de seu costume, Samuel Bronston tinha mais de um projeto simultâneo.  Ele já havia começado a produção de A Queda do Império Romano para dar sequência a55 Dias em Pequim (55 Days at Peking), e o produtor voltou sua atenção para Charlton Heston, que já estava com o roteiro em mãos (escrito pelo competente Philip Yordan, que havia feito o script de Rei dos Reis). Bronston contratou Nicholas Ray para este projeto. Apesar das diferenças de gênios, Ray aceitou a direção, mas durante as filmagens de 55 Dias em Pequim, o diretor teve um ataque cardíaco quase fatal devido às pressões provocadas e os constantes desentendimentos com o produtor. Acabou sendo o último filme dirigido por Ray após uma carreira bem sucedida em Hollywood, e desde então passou a se dedicar ao ensino universitário e a produções amadorísticas até seu falecimento em 1979.

Com uma produção bastante conturbada, 55 Dias em Peking chegou a ter capital bloqueado pela lei de Remessas de Lucro. Houve problemas com falta de dinheiro, dificuldades para recrutar centenas de figurantes asiáticos por toda a Europa e falta de sintonia do elenco (causada pelas bebedeiras de Ava Gardner, em papel para o qual Charlton Heston queria Jeanne Moureau). Ao contrário de El-Cid, 55 Dias em Pequim afundou nas bilheterias, colocando pressão maior sobre A Queda do Império Romano, que estava na fase final de edição. 

Quando foi apresentado a Bronston o orçamento de US$ 9.000.000,00 (nove milhões de dólares) para A Queda do Império Romano - dos quais o produtor só tinha garantido sete milhões e meio à sua disposição imediata - ele meticulosamente passou a trabalhar na aquisição de mais investimentos de fora para fazer a diferença ao invés de reduzir custos para se adequar aos fundos de seu capital. O custo faraônico da construção dos estúdios de cinema em Madrid e em Laz Rozas, os suntuosos cenários (só a réplica do fórum romano custou US$ 4.000.000,00) e o inevitável fracasso nas bilheterias deixaram Bronston em dificuldades financeiras, e em 1964, teve que parar todas as atividades empresariais.A Queda do ImpérioRomano acabou também sendo a queda do próprio produtor.

A Empresa de Samuel Bronston declarou falência a 5 de junho de 1964 afirmando que ele tinha uma dívida de U$$ 564.775 mil ao seu credor. Uma petição em agosto de 1964 declarou a Bronston Distributors, Inc. (uma empresa privada) a pagar a Paramount o valor de U$$ 6.75 milhões de dólares, e ao credor, U$$ 323.191 mil dólares. Em 1966, ele foi interrogado durante uma audiência pelo advogado de um dos seus credores com uma série de perguntas sobre as muitas contas bancárias que tinha na Europa. Um dos credores perguntou se ele havia tido uma conta na Suíça.

A empresa de Bronston teve uma conta em Zurique durante seis meses.O produtor respondeu que não tinha mais conta e que estava no “vermelho”. Mais tarde, foi descoberta que ele havia tido uma conta bancária pessoal muito ativa na Genebra durante os anos em que administrava suas produtoras de filmes na Europa. Bronston foi condenado por perjúrio pelos procuradores federais, que argumentavam que a sua resposta tinha real intenção de enganar ou iludir. Todas as apelações a favor do produtor foram em vão, e a Suprema Corte manteve a condenação contra Bronston, que foi anulada somente a 10 de janeiro de 1973.  A justiça aplicou sua decisão julgando que Bronston fez suas declarações ipisis literis da verdade ainda que dando respostas tecnicamente enganosas, para evitar ser processado por perjúrio, o que acabou se formando uma parte importante da jurisprudência desde então.

A falência e ação penal devastou sua carreira cinematográfica. Bronston completou em 1964 O Mundo do Circo (Circus World) com John Wayne, Rita Hayworth e Claudia Cardinale, com direção de Henry Hathaway (1898-1985). Baseada em história originalmente escrita por Nicholas Ray (que vendeu os direitos paraBronston), a produção consumiu vários milhões de dólares e fabulosas verbas de publicidade no seu lançamento, mas os resultados foram um mega-desastre de proporções irreparáveis, levando o produtor a uma ruína definitiva. Bronston só produziria mais três filmes após decretar falência: Terra Selvagem (Savage Pampas, 1966), filmado na Argentina com Robert Taylor,Dr. Coppelius (Dr. Coppelius, 1966) e Fort Saganne (Fort Saganne, 1984), filme francês com Gérard Depardieu e Catherine Deneuve.

Nos últimos doze anos de vida, ainda motivado pela extravagância, Samuel Bronston ainda sonhava com um grande retorno as telas, embora o aparecimento da doença de Alzheimer o fizesse reduzir qualquer tipo de atividade. Ele morreu de pneumonia em 12 de janeiro de 1994, aos 85 anos, no Hospital Mercy, em Sacramento na Califórnia, sendo socorrido por seu filho médico, o Dr. William Bronston. Conforme seu pedido, foi enterrado em Madrid, no cemitério de Laz Rozas.

 

Paulo Telles é produtor e apresentador do programa Cine Vintage, redator e editor do blog Filmes Antigos Club – A Nostalgia do Cinema:

http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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